ZUNÁI - Revista de poesia & debates

[ retornar - outros textos - home ]

 

 

MARIO MELÉNDEZ

 

PRECAUCIONES DE ÚLTIMA HORA

Debo cuidarme de los gusanos
cuando me entierren
lo más seguro
es que hablen mal de mí
que escupan sobre mis poemas
y orinen las flores frescas
que adornarán mi tumba
llegado sea el caso
que hasta devoren mis huesos
me arranquen los intestinos
o en el colmo de la injusticia
se roben mi diente de oro
y todo esto porque en vida
jamás escribí sobre ellos

 

PRECAUÇÕES DE ÚLTIMA HORA

Devo proteger-me dos vermes
quando me enterrarem
o mais provável
é que falem mal de mim
que cuspam sobre meus poemas
e urinem nas flores frescas
que adornarão minha tumba
quando chegar o momento
e até devorem meus ossos
me arranquem os intestinos
ou no cúmulo da injustiça
roubem meu dente de ouro
e tudo isto porque em vida
jamais escrevi sobre eles

 

SINFONÍA NEGRA

Eva colgaba sus muertos de la ventana
para que el aire lamiera los rostros
preñados de cicatrices
Ella miraba esos rostros y sonreía
mientras el viento empujaba sus senos
hacia la noche agusanada
Una orgía de aromas sacudía el silencio
donde ella se deseaba a sí misma
y entre suspiros y adioses
un grillo ciego desmalezaba

sus antiguos violines
Nadie se acercaba a Eva
cuando daba de mamar a sus muertos
la cólera y el frío
se disputaban su adolescencia
el orgasmo daba paso al horror
el deseo a la sangre
y pequeñas criaturas violentas
despegaban de su vientre
poblando los amaneceres
de luto y de pesadillas
Luego
cuando todo quedaba en calma
y las sombras por fin
regresaban a su origen
Eva guardaba sus muertos
besándolos en la boca
y dormía desnuda sobre ellos
hasta la próxima luna llena

 

SINFONIA NEGRA

Eva pendurava seus mortos da janela
para que o ar lambesse os rostos
grávidos de cicatrizes
Ela olhava esses rostos e sorria
enquanto o vento empurrava seus peitos
até a noite cheia de vermes
Uma orgia de aromas sacudia o silêncio
onde ela se desejava a si mesma
e entre suspiros e adeuses
um grilo cego desmatava
seus antigos violinos
Ninguém se aproximava de Eva
quando dava de mamar a seus mortos
a cólera e o frio
disputavam sua adolescência
o orgasmo dava passo ao horror
o desejo de sangue
e pequenas criaturas violentas
descolavam de seu ventre
povoando as alvoradas
de luto e de pesadelos
Depois
quando tudo ficava em paz
e as sombras por fim
regresavam a sua origem
Eva guardava seus mortos
beijando-os na boca
e dormia nua sobre eles
até a próxima lua cheia

 

Traduções: Claudio Daniel

 

*

Mario Meléndez (Linares, Chile, 1971). Estudou Jornalismo na Universidad La República de Santiago. Entre seus livros figuram: Autocultura y juicio (com prólogo de Roque Esteban Scarpa), Apuntes para una leyenda e Vuelo subterráneo. Parte de sua obra foi traduzida para o italiano, inglês, francês, português, holandês, romeno, persa e catalão.

Leia poemas inéditos de Mário Meléndez.

*

 

retornar <<<

[ ZUNÁI- 2003 - 2008 ]