ZUNÁI - Revista de poesia & debates

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RUY VASCONCELOS

 

 

 

 

PALHAÇO DA BOCA VERDE

 

esqueci de perguntar

o que há entre você e o medo

 

entre o medo e eu

há duas décadas

 

entre o medo e eu

uma parábola

 

entre o medo e eu

duas almôndegas

 

entre o medo e eu

partículas sólidas

 

entre o medo e eu

dois nomes, a custo ditos

 

entre o medo e eu

tocar a própria carne

 

(não vê? duas personagens

- o palhaço, a puta – refratam-nos

 

que borra será de nós

mais tarde ou cedo?)

 

entre eu, o medo e o sol

o radioso cometa

 

de teu sorriso

descreve a elipse

 

 

BACH


no mangue, mais perto do fluxo do rio
das estrias nas conchas, da pinga
de chuva sobre a areia das dunas
—translúcida água de restingas
com lodos, seixos tal qual ou o pavio
das estrelas na lua nova ou na tuna
as aquosas rubras flores em agosto—
assim a música de joão sebastião
luz não sobre vidro, mas sobre rosto
de água, espelho que olhar só convém,
a saber, porque nada pode ser mais irmão
de tudo que é mundo a despeito do homem

 

DEPOIS DE CELAN

 

Tempo depois tempo,

A traça roeu a grua:

Se os dois, em banimento,

Os retalhos da charrua

Não sulcam a terra do tempo.

Ou colam o halo da lua.

 

DOIS HAIKAIS E UM EPIGRAMA DISFARÇADO DE HAIKAI

 

 

só se pode atar
o antes ao depois, se o fio
do afeto luzir nos dois

 


a lua-cheia sobre

as dunas flutua:
qual das du(n)as é mais lua?

 

 

o único problema quando 

estamos sós 

é que não há nó maior que nós

 

SOBRE UMA FOTO DE F. AOS VINTE ANOS

 

O mar, o píer, a moça e seus descalços,

Na luz da tarde que brota de seus olhos,

Seus pés pisando as tábuas em falsos

Passos: ela flutua acima dos abrolhos.

Tudo converge para o xis dos braços

Onde de novo o dia nasce em portefólio—

Como se conseguisse os próprio traços

D'água da tarde, ganhados de espólio.

Ela está onde a cidade se equilibra

Sobre o mar com um petroleiro à deriva

Num sem andar que move mais que a vida—

A resolução da foto não retem sua fibra.

Nela, tudo balé, milagre, céu, saliva,

E, atrás, o Atlântico é só sua jazida.

 

UMA IDÉIA

[PASTICHE MODERNISTA]

 

Passei a noite pensando uma idéia.

Era tão obsedante que eu não ouvia

o rumor do vento nos galhos da goiabeira.

Não tinha mais filhas.

De uma prece, não lembraria.

Ou se lembrasse, a prece cairia

no fosso, antes de atravessar a muralha.

 

Fiquei nu com essa idéia.

Ela roubou meu corpo.

Retirou minha necessidade de água.

Fumou todos os meus cigarros.

Ocupou meu sono como

uma girafa chama o olho da criança no zôo.

 

Pus-lhe sob vários prismas.

Olhei-a com as pernas presas ao trapézio.

Mas ela revidava lá, abaixo

e engolia fogo.

Tentei em vão extingui-la;

cresceu, labareda.

 

Retorceu o meu passado

e dele coou café e insônias.

Mas quando pensei tomá-la na mão

—como se toma o lápis ou a seda—

ela me disse que não, sem rastros.

 

Então, a borra da noite cedeu à luz inevitável.

A clara manhã é bem-vinda.

 

 

*

 

Ruy Vasconcelos, tradutor, roteirista e músico cearense, nasceu em 1963, residindo hoje em Fortaleza. É professor universitário. Publicou poemas em revistas brasileiras e estrangeiras, e em 2010 publicou, com tiragem de 60 exemplares, a plaquete artesanal Mediterrâneo, pelo selo Arquería (SP). 

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