ULISSES E O SILÊNCIO
DAS SEREIAS
nos olhos mulher cindida
em azul e carne
carne em mudez de matéria
pedra
Ulisses ferindo os pés em geografia marítima
nos olhos o sangrar da memória
lâmina sulcando os mares
enunciando Ilíadas Odisséias inventários
.......................catálogos
de navios gregos
nos olhos o sumo dos mares ondulando os lábios
em sílabas aliterações cores sinestesias
................e fruto envelhecido
das vinhas
nos olhos a geometria dos ventos
marulhando folhas em fúria
o verde quedo das folhas anunciando o outono
o estio o não orbitar o tempo
nos olhos
SOLAU DOS VENTOS
O vento halitara
secara na folha o orvalho amanhecido
amor
folha verde amarelando-se
fatos matizando-se em falhas
olhos debruçados sobre a copa das árvores
farfalhar de folhas quedas
amaciando fruta prematura
A memória proferira
o vento
nas mãos em brasa
avolumando os seios
a boca nos seios brancos em brasa
jorrando água
volátil condição da chuva
amor
falena
mariposa em folha retorcida
tentando aplacar o fogo das asas
na árvore que se queima
MATRIS DIES
címbalos soam a
palavra
Sangarida
sopra terral no ostensório do meu nome
teu nome
pedra
recifes à flor das águas
cinge aves do mar e peixes
amotinando-os ao verbo magro dos viajantes
Sangarida
tuas veias marítimas sangram o signo
habitam-me o ventre
ressuscitam sereias nas siremusas
anunciam o sal
não só vermelho cor da tarde
Sangarida Sangarida
o sangue principia novo nome
VENERIS DIES
os ventos sopram chuva
branca
pombas em vôo sólido navios de pedra
sonorizam o silêncio vítreo das horas
brumas brunem a tarde sépia
asas de borboletas quedas da aurora
as folhas rugem eloqüência de mar exilado em Chipre
amor
chuva dos olhos em ilha
NOTURNO DO SILÊNCIO
houvera barcos na solidão
aquosa dos olhos
azul branco vermelho alternaram-se náufragos
mares recortaram-se em verdes cubos imersos
................ ................ ....na
água movente do copo
na orla das pálpebras peixes recém-emergidos
................ ................ ......quedaram-se
sem fôlego
liquens azuis trouxeram primavera à estática
................ ................ ................exatidão
dos barcos
simularam céus afloraram-se istmos entre
................ ................ ................
....um barco e outro
um risco azul contornara o traço esfumado
................ ................ ................
................dos olhos
as mãos ornadas de vento sopraram saudade
................ ........sobre
o silêncio salino das pedras
barcos cores mares peixes liquens pedras
................ ................ ................cantaram
teu nome
PRETENSA RENÚNCIA AO POEMA BARROCO
Sabendo-te pérola
mergulhara no mar
perdendo o fôlego
adentrara tua concha
imersa em nuvens
Sabendo-te pérola
quisera-te tal qual o homem esférico
de Platão
sabedor da origem
dos fins do homem
Sabendo-te pérola
quisera-te também frágil
nascido das águas
ou da lua
da queda do orvalho
sobre a concha
dera-me a ti
Sabendo-te pérola
quisera renunciar ao Poema Barroco
para não te saber pérola irregular
mas ainda pérola
e render-me a tua beleza translúcida
ao teu jogo de luz e sombra
aos teus movimentos em torno do nada
à embriaguez do teu Deus solene
ao tátil do teu abraço metafísico
a tua pungente alegria de estar sempre triste
Sabendo-te barroco
cintila nos olhos a pérola magoada
a triste alegria de saber-me
eternamente concha
CANÇÃO PARA NÃO BEBER ÁGUA-TOFANA
o pássaro granira
a noite depondo nas águas estrelas
................ ................ ................
....... o negro de suas asas
água-mãe líquida principia os cristais
esquivos dos olhos
pélago onde naufragam os dedos filhos deserdados
................ ................ ................
................ ...da memória
minhas mãos pássaro
verteram águas iguais
banharam-se nas marés
do dia quarto passada a lua nova
do dia quarto circunscrita a lua cheia
minhas mãos pássaro
moveram águas-régias solvendo o sol em ouro
................ ................ ................
............de navios
visão palustre onde pululam pauis pâmpanos
minhas mãos aguagem
correm agora...........águas........tempestuosas
afogam pássaros no velame
inundam granitas sementes de uvas
em cicuta água-tofana