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ANA PELUSO
para Rodrigo
Digo, queria escrever um poema. Como tentei em outra ocasião, e saiu aquela lástima que você deve se lembrar bem, ainda mais agora que mergulhou na memória permanente. Eu sempre te dizia que escrever poemas, pra mim, não é a coisa mais importante do mundo. E não é mesmo. Nunca foi. Porque antes da gente inventar d'escrever, a gente tem que ser a poesia. Como você era. Com a sua maneira peculiar de ver grandiosidade no que sempre foi simples. Com a sua humildade de querer tão pouco daquilo que pra muitos é a fartura do comum.
Não estou sabendo lidar com a sua partida. Não como você merecia, gostaria, ou mesmo imaginaria. Só sinto, quase constato, que tudo pra você foi muito prematuro em todos os sentidos.
Nunca vou esquecer as audições telefônicas com novas canções, nem as vezes em que você colocou o Bruno pra conversar comigo, e dividir impressões sobre um ou outro acorde, pra no final, ambos às gargalhadas, tirarem sarro um do outro, e até eu me acostumar, durar... segundos!
Você foi um grande irmão. Vai ser duro nunca mais ouvir o telefone tocar, e minha mãe me chamar dizendo "é o Rodrigo, do Rio, pra você".
Desculpe pelas vezes que, eu pela minha sina, não pude atender de imediato. Sei que você compreendia, como compreendia um monte de outras coisas que não interessam nem um pouco agora. Ou até interessam, mas não cabem aqui - nesse texto em menção à sua partida. Talvez um dia eu escreva um livro sobre você. Sobre o garoto que queria ser um durão, e seu doce coração não permitiu.
Digo, a gente não passeou pela praia, nem fez a (nossa) revolução, mas a gente se amava tanto, fomos tão cúmplices diversas vezes, e isso é tão maior do que a poesia, a revolução, a praia, e até o sol no final da tarde baixando a luz sobre nossos sonhos, que acho que está tudo no seu devido lugar, e a gente é que teima em não entender.
Sei que vou te reencontrar. Demore o tempo que for. Até lá, tentarei fazer o melhor prometido. Tentarei.
nunca saia de perto de mim
de alguma forma
nem fique muito distante
desse improvável palco
encena enigmas
trocadilhos
belezas
e torres altas
lembra
antes de tudo
somos eterna coragem gentil
forjados no espaço sem tempo
a golpes de realidade pura
sem esquecer que esquecer
nunca esteve grafado
no nosso dicionário
feito de nada
e quase tudo
tudo e quase nada
Todos os cachorros são azuis
e por isso reescrevemos poemas
contra qualquer maré
ou matilhas de vários tons
e não ouvimos um miado sequer
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