ZUNÁI - Revista de poesia & debates

RELL

 

Maitan

 

Deus tava tirando a favela! Já era o sétimo dia que tava sem água e ainda não tinha iluminado nada por lá. Nem tinha vida por lá. E se aquele povo foi feito à sua imagem e semelhança, Deus é feio pra caralho, tá ligado? Deus é esfomeado, porque nem fruto proibido tinha.

 

Final de dezembro. Quase ano que vem.

 

Tô cheio de cólera. E esse povo cheio de coleira, me atazanando a noite inteira, com essa missa, essa canseira! Por que não abrem uma feira? Um bazar, sei lá! Junta roupa velha. Corre no lixão! Por que não juntam a galera pra dar um jeito no mau-cheiro? Pra dar um dia de pedreiro e todo mundo não ter mais goteira em casa, hein? Mas não. Ainda é essa desgraça: esse Deus que é salvação.

 

Tô louco pra que o tráfico abocanhe também a gente. Abram uma boca, mesmo sem dente, banguela, na viela. Eu protejo. Se preciso, dou até um beijo, tá ligado? Trabalho. Tô mesmo desempregado. Já não querem me vender fiado a minha pinga de cada dia. E o coração dilacerado, ouvindo, todo acelerado: Jesus, filho de Maria.

 

E aí? Qual é a graça? Minha mãe também chama Maria. Minha tia também chama Maria. Quer dizer, chamavam, né? Vida de pobre, ativo, bom, é pouca, pequena. Sobra nada. Só esse resto, quase total, temente a Deus. Ó, uma saudade imensa da minha mãe e da minha tia. Que Deus as... Que Deus as tenha o caralho! Que Deus as tenha o caralho! Minha família é família de família, morô? Não é qualquer artista, escritor, criador, o caralho a quatro, o que for, que vai ter assim, desse jeito, sem pedir licença, sem perguntar se a gente aceita, levar embora, engolir por essa seita, essa construção de ouro, esse céu de areia, esse tesouro, nesse trono, a gente de quatro, pedindo a bênção, enquanto o senhor joga baralho, sem ouvir a dor de nossa doença, e a gente quietinho, feito criança, de castigo, repetindo o que diz, e sempre lembrando: bom trabalho, senhor!

 

Bom trabalho, senhor, à merda! Que bom trabalho é esse? Trabalho de bosta. Não sabe o que faz, careta! Acha que a gente é palhaço, é otário? Vem passar a noite aqui no meu barraco! Hein, vossa alteza, vem? Senhor dos pobres, mas aqui não vem! Parece político! Bandido! Deus é bandido. Rouba nosso tempo de arranjar pão. Pra ficar assim, ó, feito louco, só pedindo, pão ou pouco, pr`essa ilusão. Faz a gente esperar por pão depois da morte! Que sorte, hein? Que sorte! Era só o que nos faltava. Acostumar com a falta dessa vida falta. Mas o sangue já tá no olho, agora é pênalti. Eu vou é botar fogo nesse barraco-igreja aí do lado, tá ligado? Pique inquisição, o barato. Queimar esse bando de bruxo. Ouvir os gritos e dar risada.

 

Dar risada... Dar risada, mesmo! De felicidade, ó! Porque não vou mais ficar ouvindo Deus, durante toda noite, sacou? Dando ouvido a Deus! Duvida, é? Nem terei que acordar oito horas da manhã, sendo que nem emprego eu tenho, pra ficar ouvindo nesse puta som, herdado, sei lá. Essas rádios gospel no último volume. Esses só sucessos de Deus, gritando na minha cara, tapando o sol do meu dia, no meio-dia. Às três horas. É toda hora. Deus na TV. Afinal, Deus também quer aparecer! Mas não sabe fazer isso sozinho. E puta-que-o-pariu: o filho da puta foi receber ajuda bem dos meus vizinhos! Sintonizado, canal um, dois, três, quatro, cinco, seis, dezoito, oitenta e quatro, duzentos e treze, seiscentos e sessenta e seis... Todos os canais, de uma vez, que Deus tá comprando. Essa TV ligada, do cão, falando de Deus o tempo todo, mermão! Ah, não! Assim não dá, assim não vou, assim não.

 

Tá na hora de chacoalhar essa poeira. Eu tô na cólera, já falei, né? De fazer besteira. Eu me conheço. Sou gente boa. Sou gente. Boa. Bom. Bom mesmo é o pique que tenho pra vida. Bom mesmo é meu calo, meus calos, minhas feridas, que aguentam noite e dia essa minha tortura, minha tontura, e não me deixam cair. Tô sempre pronto pra mais uma. Bom mesmo são minhas veias que ainda não estouraram ou entupiram. Por sorte, ouviram? Por sorte. Bom mesmo, nessa vida, só pode ser a morte. Acha que eu tenho medo? Cadeia? Hã! Cadeia pra mim é brinquedo. Tanto faz. Eu é que não aguento mais. Não aturo mais, rapaz. Essa cantoria toda. Essa gritaria. E eu vou chegar assim, falando, mesmo com a voz rouca, com pano, na cara, pique revolucionário, com a gasolina, porque não tenho arma. Com o fósforo porque não tenho isqueiro. No dia primeiro de janeiro, logo na virada. Eu vou queimar o barraco inteiro, a favela inteira. Eu não tô de brincadeira. Não vai sobrar nada.

 

Eu falei isso, doutor. Pra mim mesmo. Pode acreditar! Pode me prender. Não tô devendo, nada. Olha a minha cara. Eu não tenho essa roupa que vocês tão vestindo, essas marcas. Marca pra mim só se for da vida. Cês fala aí de Deus, tem esse crucifixo, aqui, no tribunal, em nome de Deus. E as leis todas sob a proteção de Deus. Mas cês não respeita o próximo, aqui, eu. Cês não dividem sua comida, não me arranjam uns trocado. E olha que nem drogado eu sou! Viu? Não sou drogado. Nunca me deram um emprego decente, educação, tá ligado? E ainda por cima vão me prender, me deixar enclausurado. Tá vendo como Deus é o Diabo? Nem o advogado pode me salvar.

 

E foi isso que fiz. Dia primeiro de janeiro, na virada do ano. Fui sozinho. Com o fogo na mente. Com o corpo já quente. Plantar o inferno. Joguei gasolina, embaixo e em cima do barraco do lado. Mas pra não fazer serviço mal feito, pra não parecer mal planejado, joguei também gasolina nos restos dos barracos, até no meu. E acendi o fósforo. Mas ele apagou.

 

Olhei pra cima e falei: e aí sangue-ruim? Quem será mais forte? Hein? Eu ou você? E tornei a acender. Outro fósforo. Que pegou e logo foi pro chão. E a favela inteira pegando fogo, o inferno. O Reino dos Céus brilhando fogos de artifício. E a minha vida iluminando. Meu réveillon.

*

 

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